Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

Ambrósio de Milão - sobre a penitência (série Patrística)

Quis falar sobre este livro à parte por ser ele de uma argumentação e beleza singulares no contexto histórico em que está inserido. Todo este livro e tudo que será tratado repercute uma experiência que, ao meu ver, foi traumática para a Igreja: o cisma de Novaciano.

Mais uma vez na história, teremos dois lados e ambos estarão certos e errados em seus posicionamentos. A postura de não aceitar a penitência, pois a graça de Deus perdoaria os pecados, encontra guarita no pensamento da Reforma Protestante que viria tanto tempo depois. Por outro lado, a dureza em relação aos apóstatas arrependidos, exigindo-lhes um rebatismo e não meramente uma confissão pública, a divisão da Igreja e a aceitação de ter sido eleito como líder da nova Igreja surgida do cisma, tudo isso depõe contra esses que foram chamados de “puros”, palavra que vem de “cátaros” no grego. Os novos puritanos foram assim chamados por não concederem o perdão e não aceitarem que a igreja romana também assim o fizesse com os apóstatas arrependidos. Eles passaram a rebatizar seus convertidos.

Tento entender o que aqueles cristãos viveram debaixo daquelas 3 grandes perseguições antes de Galério lançar o Edito da Tolerância (311). A história conta que Decio (250) perpetrou a maior perseguição oficial e que, pela primeira vez, envolveu todo o Império. É por causa desta perseguição que Orígenes morre após sofrer tortura. Decio obrigou que todos os cidadãos o adorassem e prestassem culto de ações de graça para que, por meio disso, provassem sua lealdade a Roma. Muitos cristãos compraram esses documentos para que pensassem que fizeram os sacrifícios exigidos. Nesses cultos eram feitos sacrifícios e quem deles participasse recebia um documento comprovando ter se submetido a esse evento religioso e civil. A história diz, porém, que a maioria dos cristãos optou por fazer esse sacrifício para não morrer. É impossível que uma experiência como essa não tenha marcado indelevelmente o Cristianismo! Mesmo após a morte de Decio, houve ainda grande perseguição debaixo de Valeriano, que com vários editos acirrou ainda mais a perseguição contra os cristãos. Um último grande avanço esmagador contra a Igreja se deu com Diocleciano, que mandou que as casas dos cristãos e as cópias das Escrituras fossem queimadas. Em 313, Constantino encerra com um decreto a perseguição aos cristãos. É a partir desse contexto que precisamos ler a obra de Ambrósio.

Assim como o contexto histórico nos ajuda a avaliar o aparecimento dos novacianos e compreender os erros e acertos de ambos os lados, o mesmo contexto ajudará a perceber que o “papado” foi ao mesmo tempo uma construção e uma imposição às demais igrejas favorecida por várias questões exigidas naquele momento. Ainda que assim o tenha sido, o papado nunca foi aceito pelas igrejas do Oriente e, mesmo no Ocidente, sempre foi questionado por questões políticas, doutrinárias e morais. Exemplo disso é a controvérsia Quartodecimana que quase separa a Cristandade ainda no fim do século II.

Daí Ambrósio abrir seu livro tratando da moderação como a mais bela de todas as virtudes - é uma resposta clara aos novacianos, que só desapareceriam no século VIII. E o livro todo se apresenta como uma pérola da misericórdia que deveria ser lido por todo cristão. A tese de Ambrósio, que escreve muito bem e ainda nos presenteia com lindas frases de efeito, é que a moderação deve temperar a justiça (Ec 17: 16-17). A igreja não pode exigir uma penitência que não levará a uma indulgência. Toda penitência deve prever seu fim, sua indulgência. Quando, ao contrário, os novacianos se negam a perdoar, mostram sua heresia, pois foi dada à igreja o conceder o perdão.

Como podem os novacianos negar a misericórdia concedida por Deus (Os 6:6)? Jesus veio na carne do nosso pecado exatamente para a nossa redenção: ele tinha a nossa carne, mas sua carne não tinha nossos vícios, diz Ambrósio. 



Contra os novacianos, Ambrósio chega a apelar que os que são submetidos à tortura podem falar com a boca numa direção, enquanto o coração continua entregue ao Senhor! Se perguntássemos ao diabo sobre estes que cederam à tortura é certo que escutaríamos dele: este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim, diz Ambrósio! É usada a parábola da Grande Festa (Mt 22) contra os novacianos, pois estes estão negando que se entre na festa os coxos, os cegos e os aleijados (os fracos apóstatas arrependidos).

Parece que um dos argumentos dos Novacianos é que o homem não poderia perdoar os pecados por meio da penitência apenas pelo batismo. Daí eles rebatizarem os convertidos e negarem as penitências de Roma sobre os apóstatas arrependidos. Não é muito claro se há algo mais nestas penitências além da confissão dos pecados e uma postura de arrependimento públicas para mostrar a mudança de coração, associadas à prática do jejum.

Embora os novacianos pudessem estar certos quanto à inutilidade das penitências àqueles que já foram alcançados pela Graça, estavam totalmente errados quanto a não perdoar e a limitar essa mesma graça, tornando-a ineficaz diante do pecado da apostasia. E se os novacianos estão errados, Ambrósio no afã de apresentar seus argumentos também erra e abre caminho para o que, mais tarde, vai se desenvolver como uma das mais principais doutrinas refutadas na Reforma Protestante, a saber, a intercessão dos santos. Para Ambrósio, quanto aos pecados leves, cada um deve orar por si, mas quanto aos delitos graves, naqueles que o próprio Deus se mostra diretamente aborrecido, nestes a intercessão deve ser dos mais santos, dos mais justos (como foi no caso de Moisés e Jeremias diante do povo, argumenta Ambrósio). Tudo isso como resposta aos Novacianos que diziam não poder perdoar a quem nem Deus perdoa, dessa postura para o “quinhão de boas obras acumuladas pelos santos e que poderão ser contabilizadas nas contas dos pecadores mais miseráveis” será um pulo. 

Assim, vemos estabelecido o palco para a Reforma Protestante: a Igreja Romana crê na Cruz de Cristo para o perdão do pecado que nos separa de Deus, mas o sangue de Cristo não cobre os demais pecados que virão a seguir na vida do fiel, por isso (veja que sequer se levanta a existência do purgatório) é preciso que as penitências cumpram sua função. Porém, os novacianos levantam a questão do “pecado imperdoável”, aí Ambrósio contra-argumenta que, biblicamente, houve a intercessão de homens mais santos para cobrir estes pecados abomináveis. Deve-se, portanto, apelar a estes...

O que me chama a atenção nisso tudo é ver como nascem os falsos ensinos, os ensinos equivocados. Temos de um lado os novacianos e de outro Ambrósio e em ambos podemos ver os acertos e os erros dos cristãos daquele período: a intercessão dos santos, a penitência para o perdão dos pecados, o surgimento do pontificado papal, o cisma da igreja, a dureza da ala puritana e o rebatismo para a salvação. Estamos chegando ao fim do século IV. 

Ambrósio de Milão (1ª parte) - série Patrística

Entre os escritos de Irineu e os de Ambrósio há um vão de quase 200 anos. Pesquisei e tentei entender o porquê desse vácuo na literatura cristã, mas o máximo que posso dar são suposições pessoais: 1) acredito que a série Patrística siga a Tradição latina e que, portanto, a produção grega não está sendo levada em consideração (será?); 2) a perseguição contra os cristãos piorou no 2º século; 3) o problema com os Novacianos causou um trauma na igreja martírica; e 4) após a conversão de Constantino, houve uma adaptação cada vez maior do cristianismo à sociedade envolvente.

O que vimos até Irineu foi uma Igreja fortemente combativa, mas os Novacianos (250), que tratarei melhor no próximo post, é o pano de fundo que, na minha opinião, dará o contexto e explicará a opção tomada pela igreja no terceiro século. O novacionismo tornou-se um movimento dos seguidores de Novácio, que se recusava a aceitar de volta os cristãos que, durante a grande perseguição do Imperador Décio, apostataram e sacrificaram aos deuses romanos para não morrerem. Entretanto, não foi apenas contra o novacionismo que Ambrósio vai escrever, mas também contra o arianismo e contra o bispo Apolinário de Laodicéia, que apresentava uma cristologia herética.

Uma nota surpreendente que devo fazer, pois mostra como o cristianismo do tempo de Ambrósio mudou substancialmente, é que, mesmo após a condenação do arianismo no Concílio de Niceia (325), por muito tempo a Igreja aceitou a alternância entre ortodoxos e arianos nas sedes episcopais. O arianismo negava a consubstancialidade do Filho com o Pai, logo Jesus não era Deus e, portanto, em algum momento teria sido criado. O arianismo avançou sobre a igreja do Oriente. O Concílio de Constantinopla (381) renova a condenação do arianismo.

Embora nos livros presentes neste volume da Patrística dedicado a Ambrósio de Milão, assim como nos anteriores, não haja nada que corrobore uma mariologia, um dos títulos de outro livro de Ambrósio é “Sobre a virgindade perpétua de Maria”. Aliás, Ambrósio escreveu outras duas obras sobre o valor da virgindade: “Exortação à virgindade” e “Sobre a instituição das virgens”.

No primeiro livro, “Sobre o símbolo”, Ambrósio trata sobre o símbolo da fé, que é o resumo dado pelos apóstolos. Ele atenta, criticando tanto a Igreja do Oriente como a do Ocidente, que não podemos acrescentar e nem tirar nada desse resumo. Aqui, para confrontar o patripassionismo, heresia que declara não haver diferença entre o Pai e o Filho, assim teria sido o Pai a sofrer na cruz, Ambrósio expõe uma linda defesa da Trindade, mostrando que a ortodoxia foi herdada dos apóstolos de Jesus.

Em Ambrósio está muito mais marcado a questão já do papado e deste vindo como herança de Pedro. Interessante notar também que a tríade se dá Jesus-Pedro-Papa, sendo que a palavra “vicário”, para Ambrósio, refere-se àquele que se encontra no lugar de Pedro (e não diretamente no lugar de Cristo). Para Ambrósio, o símbolo não deve ser escrito, pois deve ser decorado.

No livro, Ambrósio está dando pequenas aulas, exortações, na verdade, aos que foram batizados. O argumento que ele dá para explicar o sacramento do batismo depois de já tê-lo ministrado é que o justo não é salvo pelas obras, mas pela fé, assim como Abraão. Foi a fé que nos salvou, mas é preciso que sejamos “abertos” pelo ritual realizado pelo sacerdote durante o batismo para que os fiéis agora possam ser ensinados sobre tudo o que se deu no rito. Em outras palavras, o que aconteceu você recebeu pela fé, que é um presente de Cristo, e, por causa dela, recebeu o batismo sem compreender tudo o que foi feito (isto é o que Ambrósio está chamando de “pela fé”).

Ambrósio passa a explicar o rito do batismo em detalhes. O que me chama a atenção é um certo gnosticismo oficializado pelo romanismo. Há um rito de iniciação. Você não entende o que significa bem aquilo, mas se submete “pela fé”. A fé é um presente de Jesus, logo se submetem ao batismo não os que compreendem, mas os que foram chamados, os que possuem a “fé”. A compreensão fica para depois que você já passou pelo rito.

Ambrósio na sua interpretação fortemente alegórica trará todas ilustrações de batismo do AT para explicar o batismo cristão, todavia, e isto é muito importante, são sacramentos diferentes: os sacramentos instituídos por Jesus são mais sagrados e anteriores aos dos judeus! Quanto à Ceia, Ambrósio irá fazer uma diferença que Irineu já havia feito: “judeu” é o povo nascente em Moisés. Por que Ambrósio faz isso? Para explicar que os sacramentos cristãos, embora encontrem figuras no povo judeu, são superiores (porque aqueles eram sombras e a perfeição agora chegou com a Igreja) e mais antigos, pois são anteriores à formação da nação judaica em Moisés. A Ceia cristã foi dada como sombra em Melquisede e o batismo cristão no dilúvio com Noé.

Por que Jesus precisou ser batizado e por que a forma de batismo dele foi diferente do que a Igreja faz no tempo de Ambrósio?

Na sua exortação ao recém-batizado, Ambrósio explica que, primeiro, o sacerdote consagra a água e nessa consagração vem o ES e faz dessa água não mais uma água comum, porque ela realizará a purificação e santificação do batizado. Com Jesus, a ordem é diferente: Jesus entrou primeiro na água e só depois veio o ES, para que as pessoas não pensassem que Jesus precisava ser purificado. Todavia, Ambrósio está julgando o batismo de Jesus com critérios posteriores, assim como quem julga o passado por regras válidas no presente. O correto seria Ambrósio perceber que o batismo de Jesus tem um significado diferente do nosso batismo. O batismo de Jesus é um símbolo que aponta numa direção diferente da apontada pelo nosso batismo. A pergunta que se deveria fazer, uma vez percebido que a mensagem do batismo de Jesus é diferente, deve ser: qual é a singularidade daquela mensagem?

Não podemos esquecer que Ambrósio está tratando o batismo sob o evento histórico e traumático dos Novacianos. Estes não aceitavam que os cristãos apóstatas fossem recebidos novamente, uma vez que, para não morrer, se entregaram ao sacrifício dos deuses romanos na época da perseguição. Posteriormente, contudo, arrependeram-se e pediram para retornar à comunhão. Os apóstatas arrependidos eram submetidos às penitências devidas e depois reincorporados à comunhão pelo Bispo de Roma. Novaciano criou um cisma na Igreja, deixando-se eleger Papa contra o Bispo Romano. Os Novacianos entendiam, ao contrário de Roma, que, para os apóstatas serem recebidos de volta, eles precisavam ser novamente batizados. Daí surgirá toda a discussão sobre o que é o batismo, discussão que se estenderá até Agostinho, mas que já em Ambrósio encontra a tese de que o batismo, assim como a Ceia, é realizado pelo próprio Jesus e é irrevogável pelo que ele significa: o sinal e o selo da aliança, portanto irrepetível (assim como a circuncisão).

Até o tempo de Irineu, este deu testemunho da presença de sinais e maravilhas, já Ambrósio precisa justificar (170 anos depois) a ausência desses sinais: os sinais eram para os incrédulos, mas agora, na plenitude da Igreja, eles tem o privilégio da fé (I Cor 14:22). Ainda na descrição do rito do batismo, por mais de uma vez, Ambrósio se refere à estrutura de uma Igreja que se serve do modelo veterotestamentário convivendo com o modelo do Novo Testamento: sumo sacerdote, sacerdote, levita e presbítero são os nomes que aparecem durante o rito do batismo.

Ambrósio vai ligar o batismo à ideia da morte do velho homem, contudo não o faz associando o batismo à forma de sepultamento, como muitos fazem ao ler o texto de Paulo aos Romanos (6:4-5), ainda que no tempo de Paulo, assim como aconteceu com Jesus, o sepultamento fosse feito na pedra escavada e não no chão. Ambrósio, por outro viés, faz a ligação do batismo com o sepultamento pelo verso “Do pó (terra) vieste e ao pó (terra) voltarás”, afirmando que assim como a terra não lava, mas a água que sai da terra lava, a água é usada como ligação do homem à terra. Ao imergir na água aquela sentença de Gênesis é desfeita, pois o homem morre, mas sem o terror da morte. O batismo registrado por Ambrósio é por imersão, mas é tríplice: o fiel é mergulhado nas águas 3 vezes. Tudo isso para que o Pai, o Filho e o ES deem o seu perdão a todos os pecados outrora cometidos.

Assim que o fiel sai das águas, ele recebe na cabeça o unguento, para significar a regeneração do Espírito. Além do unguento na cabeça, logo após a saída das águas, na Igreja de Milão, ao contrário do que acontecia em Roma, o sumo sacerdote lava os pés do fiel. Ambrósio justifica sua desobediência à Roma, alegando que eles em Milão também sabem pensar ao ler as Escrituras (olha o sola scriptura aí rsrsrs) e que, ainda que não seja esse o costume em Roma, é claro que se deve lavar os pés, pois: “Se eu não te lavar os pés, não terás parte comigo” (João 13: 8). Para Ambrósio, além do exemplo de Pedro, o lava-pés ocorre porque foi a parte de Adão que Satanás insidiou. Finalmente, após tudo isso, pela invocação do sacerdote ocorre a infusão do ES, que é o que conhecemos hoje pelo nome de “crisma”. Parece que, literalmente, ainda antes do batismo, o sacerdote cobre os olhos do fiel com barro à semelhança do que Jesus fez com o cego no Evangelho de João.  

“Tudo que ele falou é mistério”, diz Ambrósio sobre o evangelho de João. Assim, mais uma vez, eu volto à tese de que houve um sincretismo nos últimos 170 anos entre Irineu e Ambrósio no que se refere ao gnosticismo. A referência de que a mensagem do Evangelho também era uma gnose, ainda que revelada e, por isso mesmo, superior às pseudognoses, recebeu uma ênfase que não havia até Irineu. A própria interpretação alegórica favorece esse significado oculto, místico, hermético das Escrituras, pois se a alegoria é o método de interpretação bíblico, evidentemente também o era para os gnósticos. Portanto, caberia indagar: entre uma alegoria e outra como saber qual a correta, uma vez que a alegoria é um método de certa maneira arbitrário? É evidente que a igreja precisará estabelecer que é ela quem tem a interpretação correta das Sagradas Escrituras!

No livro IV, “Sobre os sacramentos”, Ambrósio fará uma defesa da superioridade do sacramento da Ceia em relação ao sacramentos judeus apelando para a antiguidade: a ceia remete à Melquisedeque! Porque, para Ambrósio, a nação judaica começa em Moisés, daí ser importante para ele trazer a ligação com tudo o que é anterior, tanto para o batismo como para a ceia. Melquisedeque é Jesus que deu a Abraão a Ceia. Veja que, neste ponto, não há qualquer espaço para uma doutrina da transubstanciação. Por diversas vezes, Ambrósio parece realmente se referir a uma transubstanciação literal dos elementos ao longo dos livros, todavia, em todos esses momentos, logo após, ele traz alguma frase que aponta para o fato dele estar se expressando espiritualmente. O que dificulta e gera essa ambiguidade é a linguagem sempre alegórica de Ambrósio. Pois, como a própria Confissão de Fé de Westminster explica no Capítulo XXVII, Dos Sacramentos, II: “Em todo o sacramento há uma relação espiritual ou união sacramental entre o sinal e a coisa significada, e por isso os nomes e efeitos de um são atribuídos ao outro”. Assim, pode ser que realmente o que Ambrósio esteja fazendo seja apenas tomando os nomes e efeitos de um e atribuindo-os ao outro. O final do livro de Ambrósio “Sobre os mistérios” aponta nessa direção. 

No livro V, “Sobre os sacramentos”, Ambrósio passa a tratar da oração do Pai Nosso e interpreta que o “pão” da oração se refere à ceia do Senhor. Assim, na Missa (pois, embora sem uma realidade de transubstanciação, há o sacrifício espiritual e real de Cristo no rito da mesa), o fiel deve participar diariamente do pão, ao contrário dos gregos, que só participam uma vez por ano.

Quanto ao batismo, expressa-se claramente uma diferença quanto ao papel do rito na regeneração do fiel e o que é dito na Confissão de Fé de Westminster. Assim, é neste momento em que se deixa de ser uma mera diferença de linguagem e o símbolo deixa de ser um indicador, um sinal, passando a ser a própria realidade simbolizada. A água, verdadeiramente, para nada serve, até que tenha recebido a consagração do sacerdote e, com as palavras proferidas por ele, o ES vem sobre as águas e elas passam a ser mais do que meramente são:

CFW: “Dos Sacramentos”, V. Posto que seja grande pecado desprezar ou negligenciar esta ordenança, contudo, a graça e a salvação não se acham tão inseparavelmente ligadas com ela, que sem ela ninguém possa ser regenerado e salvo os que sejam indubitavelmente regenerados todos os que são batizados.

Uma das grandes sacadas de Ambrósio, e este tipo de leitura que ele faz me interessa tremendamente, é quando ele compara as "pombas" da Arca de Noé e aquela que desceu sobre Jesus no batismo. Ele irá fazer essa comparação para comprovar que a presença do ES no nosso batismo, embora uma presença invisível, é real.

Ambrósio argumenta que a pomba lançada por Noé é uma alegoria do ES naquele que foi uma figura do batismo, a saber, o dilúvio. Os sacramentos (batismo e ceia) cristãos são superiores aos dos judeus (Ambrósio entende o judeu como a nação nascida em Moisés), porque são mais antigos (Noé e Melquisedeque vieram antes de Moisés), contudo, são ainda só imagens, figuras, sombras da realidade que seria instaurada no NT.

Portanto, pode-se perguntar, diz Ambrósio: como que a pomba que veio sobre Jesus é mais real que a de Noé se esta era uma pomba de verdade e aquela era "em forma de pomba", isto é, sequer era uma pomba mesmo, apenas uma figura, uma aparência? Ora, como aceitar que a pomba de Noé é que era imagem e a que veio sobre Jesus é que era real, se sequer os olhos das testemunhas do batismo de Jesus podiam distingui-la direito?

Grande sacada de Ambrósio: a criatura só pode ser imagem, pois ela se dissolve, muda e passa, mas a divindade permanece para sempre. Aquela pomba em Noé, portanto, era apenas figura, mas aquela aparência que desceu sobre Jesus era a realidade, manifestada por causa dos incrédulos. Portanto, durante o batismo, a fé é chamada a ver a realidade da presença invisível do ES. Se em outros momentos, houve fogo caindo do céu e anjos revirando águas para que os incrédulos vissem, a fé, que é um presente superior, não precisa ver, pois sabe da realidade da presença do ES no batismo e da presença de Cristo na Ceia. Em suma: embora o essencial seja invisível aos olhos, a fé capta a presença da realidade divina que assalta este mundo nos sacramentos.

Todavia, como já foi dito, no batismo, a linguagem é ultrapassada no seu significado alegórico e simbólico e passa a ser a própria realidade indicada: para Ambrósio esta água lava dos pecados. E é interessante entender isso, porque esta é a porta aberta para se compreender a diferença entre a posição romana e a reformada. Pois o sangue da cruz e a água do ES lavam do pecado que nos tira da presença de Deus, todavia, se no sangue e na água é dado a nós apenas a entrada do céu, como apagar a dívida dos pecados cometidos depois de sermos salvos? Como ainda não existe a doutrino do purgatório, pois nenhum dos escritos até aqui o citou, restam as penitências. Estas é que serão responsáveis por fazer aquilo que o sangue e a cruz de Cristo não foram capazes. E neste ponto é interessante notar que para os Novacianos o sangue de Cristo já cobria todos os pecados, daí eles serem contra a penitência, que, neste momento, parecia incluir a confissão pública dos pecados, a confissão íntima e algum ato visível como uma postura de luto até que fosse determinado pelo sacerdote o fim de tudo isso.

No próximo post, quero falar do “Da penitência” (último livro do volume dedicado a Ambrósio) à parte, por causa da beleza na linguagem de Ambrósio que merece comentários mais dedicados.

Contra as heresias - Irineu de Lião (última parte)

Últimos temas

Interpretação de texto e Contaminação

Quando ocorre um crime, uma das primeiras providências da polícia é isolar o local para que não haja contaminação. Mas o que é a contaminação? É tudo aquilo que fará com que eu interprete de maneira errada os fatos, porque o local não foi preservado. Outros entraram e saíram da cena do crime deixando suas marcas, digitais, DNA e, até mesmo, alterando a cena, seja trocando objetos de lugar, seja retirando ou adicionando elementos à cena. Boa parte dos incidentes de contaminação ocorrem involuntariamente. Ainda assim, muitos réus condenados são absolvidos quando sua defesa consegue provar que houve contaminação.

Quando lemos obras do passado também pode ocorrer contaminação. E esta é suficiente para gerar interpretações equivocadas dos fatos. Veja: só fatos não bastam. É preciso que se mantenha a cena debaixo de uma situação ideal. Em outras palavras, há regras. Não fosse assim, cada um traria a sua própria bagagem como herança sobre a cena do passado e jamais conseguiríamos ver como, de fato, as ideias se originaram e se desenvolveram. É anacronismo tudo o que eu projeto do presente para o passado exigindo deste o que ele não pode dar. Assim deve-se entender que ensinos como o Papado, a primazia de Roma, a Imaculada Conceição, a Transubstanciação, etc não são encontrados até o ano 200 nas obras que a série Patrística da Paulus nos apresenta.

Qualquer leitura mais “adepta” será pura contaminação, isto é, eu estou lendo as minhas próprias marcas que deixei ali, desrespeitando a cena naquilo que ela realmente diz. Fatos são interpretados, assim, se as regras de interpretação não são claras e honestas, qualquer fato (assim como qualquer texto bíblico) pode ser usado para se defender qualquer coisa, até mesmo coisas contraditórias entre si.

Digo isso, porque quero ser honesto com tudo o que li até agora e dizer que o que se pode ver é: 1) as heresias ajudaram e muito a mostrar para a Igreja a necessidade e a urgência de se definir os livros que eram e que não eram autoritativos; 2) a aceitação do cânon bíblico não foi produto de uma elite ou de um “poder eclesiástico”, mas eram os livros que vinham sendo aceitos em várias igrejas locais de lugares muito diferentes uns dos outros; 3) a Igreja sempre entendeu que o cristianismo tinha a sua raiz no AT e defendeu ferrenhamente isso; 4) o governo das igrejas locais era episcopal; 5) os dons extraordinários do Espírito Santo ainda são testemunhados até Irineu; 6) as igrejas foram descartando os livros – como é o caso do Pastor de Hermas, por exemplo - que se mostraram contrários aos ensinos que ela recebeu como Regra de Fé, a Tradição Apostólica; 7) "Sucessão apostólica" não aparece até o ano 200 como um salvo conduto para se introduzir doutrinas novas, ao contrário, o que se lê é que a Tradição Apostólica é uma defesa da ortodoxia, daquilo que foi recebido dos apóstolos e repassado de presbítero para presbítero até Irineu.

Adianto também que tudo isso mudará radicalmente, pois o próximo livro da série Patrística dará um salto de quase 200 anos! O mundo será totalmente diferente para Ambrósio de Milão: já terá ocorrido a conversão de Constantino, o cristianismo já é a religião do Império, já ocorreu o Concílio de Niceia (325) e estaremos às vésperas do Concílio de Constantinopla (381). Apesar dessa mudança vertiginosa, a Editora Paulus não faz nenhum comentário sobre esse vácuo literário de quase 200 anos! Mas sigamos!

Ainda sobre as Escrituras e a Tradição Apostólica

Nos livros anteriores da série da Patrística, já havia me referido aos comentários feitos nas notas de rodapé que revelam um adepto da Teologia Liberal, um teólogo da libertação.

Além disso, as notas de rodapé demonstram todo o romanismo na leitura e conclusões do comentarista. Por exemplo, como insistir que Irineu esteja defendendo “a tradição” acima das Escrituras, quando, na verdade, lendo sob a perspectiva do tempo de Irineu, podemos ver que o foco dele é, tão somente, mostrar que, ao contrário dos gnósticos que inventavam suas teorias, as igrejas locais espalhadas pelo mundo tinham recebido seus ensinos dos seus fundadores, os apóstolos, que depois registraram o Evangelho. Em outras palavras, as igrejas sabiam de quem tinham recebido seus ensinos, os gnósticos não! Querer que Irineu esteja dizendo que a tradição é superior às Escrituras é uma interpolação do comentarista apenas. Até porque, o argumento de Irineu é que as Escrituras espalhadas pelas Igrejas são coerentes por causa da unidade dos Apóstolos, que receberam os ensinos pois caminharam juntos com Jesus, enquanto os gnósticos em seus escritos, em cada escola gnóstica, em cada livro e a cada mestre deles traziam ensinos contraditórios entre si, porque eram fábulas inventadas. 

Querer daí justificar que a “tradição” é superior às Escrituras e que, portanto, o colegiado romano é herdeiro da “tradição”, podendo ensinar coisas que não se confirmam na Bíblia, não tem nada a ver com o que Irineu está dizendo. O próprio Irineu expõe muito bem que, se os Apóstolos não tivessem deixado as Escrituras, em questões de discordância e dúvida, poderia se recorrer às igrejas mais antigas. Veja, o ponto é: uma vez que há as Escrituras, não se precisa recorrer às Igrejas mais antigas! 

Por outro lado, é bom frisar que Irineu sabe que a salvação não depende da Fé anotada em letra e tinta. Os povos bárbaros estão sendo salvos pelo que eles têm ouvido: o Evangelho! Nem todos esses povos tem a Bíblia em suas próprias línguas, mas estão sendo evangelizados pela língua comum e sendo acrescentados à Igreja.

Retomo tudo isso, porque Irineu pode ser tomado também como alguém que esteja defendendo “a transubstanciação” na Eucaristia. E a leitura dos seus textos sobre esse tema sofre das mesmas críticas que fiz quando abordei a "mariologia" e a "tradição apostólica". A linguagem de Irineu sobre o pão e o vinho são bíblicas, apenas isso. E o foco dele, naturalmente, está em seu contexto: a mesa aponta para a unidade da Igreja ao contrário da confusão gnóstica.

A Eucaristia em Irineu está ligada à doutrina da recapitulação, pois assim como Deus é capaz de fazer dos elementos da terra (pão e vinho) uma nova coisa, por causa da Palavra, Ele será capaz também de nos ressuscitar em corpo glorificado. Jesus, na sua ressurreição, recapitula o Cosmos: eis que novos Céus e nova terra serão feitos. Ressurreição da carne que os gnósticos não aceitavam!

A Doutrina da recapitulação e a Theosis

“Theosis” é uma doutrina central na Teologia Ortodoxa, que vê na Encarnação de Cristo a etapa para a deificação de todos nós. “Deus se fez homem para que o homem se torne deus” – esta doutrina encontra sua base bíblica em 2 Pedro 1:4. E muitos Padres da Igreja vão citar, uma hora aqui e outra ali, reverberando essa ideia até que ela ganhe corpo. Eu mesmo não sei se a doutrina da recapitulação acaba realmente apoiando a Theosis ou não. É algo para se estudar. Mas a resposta clara de Irineu à clássica pergunta “Por que Deus se fez homem?” é: “...para que o homem unindo-se ao Verbo de Deus e recebendo assim a adoção se tornasse filho de Deus”. Já vimos que, para Irineu, a recapitulação é para nos levar à condição de verdadeiros homens. 

A Escatologia de Irineu

Deve-se compreender a escatologia de Irineu também debaixo da doutrina da recapitulação, pois, assim como Jesus recapitula o homem para a salvação, o Anticristo recapitula toda a linhagem rebelde para a condenação.

Para Irineu, o Templo de Jerusalém será reconstruído e ali se assentará o Anticristo. A ênfase de Irineu no livre-arbítrio humano é forte no livro V, pois é o momento da escolha e da responsabilidade humanas que estão em jogo. Além disso, o livre-arbítrio faz parte da economia da nossa salvação para nos amadurecer e levar para mais próximos de Deus (doutrina da recapitulação).

Para Irineu, a Igreja será arrebatada e só depois virá a grande tribulação, que será um período de prova e conversão dos últimos salvos daquele momento. Quando, então, o Anticristo tiver reinado 3 anos e 6 meses, Jesus virá e destruirá toda obra do mal e reinará assentado no Templo por mil anos e dará a Abraão a Terra Prometida. Contudo, não há um Reino de subserviência da Igreja à Israel como já vi em algumas escatologias (como, por exemplo, no Manual de Escatologia de Dwight Pentecost). Ao contrário, a posteridade de Abraão é a Igreja e, portanto, estaremos todos no milênio de Cristo sendo governados por Jesus. Contudo, os que ficaram na terra e suportaram a Tribulação (e mais os pagãos da Grande Tribulação, preparados por Deus para este momento) serão governados pelos crentes durante o milênio.

O milênio se encaixa na doutrina da recapitulação, pois ele se faz necessário para preparar o povo de Deus para viver na glória depois do milênio.

Há ensino contraditório em Irineu?

Sim. Embora seja indubitável que, para Irineu, a salvação não se dê pelas obras, mas exclusivamente por Jesus Cristo, em determinados momentos (lembre-se que são 5 livros escritos em datas diferentes), parece que Irineu chama a atenção para que a salvação se deu por causa da presciência de Deus, mas em muitas outros momentos Irineu não considera isso. O ensino do livre-arbítrio também é, para Irineu, a maneira de responsabilizar o homem. 

Por que Jesus usou do lodo para curar o cego de nascença?

Por que Jesus, simplesmente, pelo poder da sua palavra, não deu vista ao cego no Evangelho de João? Por que usou do lodo e da água do tanque de Siloé (João 9)? Um tema caro para Irineu (e também para os Pais da Igreja) é o das “mãos modeladoras de Deus”. Assim como Adão foi modelado pelas próprias mãos de Jesus no Éden, por causa da doutrina da recapitulação, Jesus usa do barro novamente e do Espírito Santo (simbolizado pela água) para remodelar os olhos do cego. E é exatamente assim que Jesus nos dará um novo corpo para a ressurreição. Ali, na cura daquele cego, Jesus também estava recapitulando a humanidade e preparando-a para a ressurreição.

Contra as heresias - Irineu de Lião (3ª parte)

Teologia de Irineu e a “Tradição Apostólica”

Todos os meus argumentos sobre o tema do post anterior, a “Mariologia” de Irineu devem ser retomados para se compreender precisamente o tema da “sucessão apostólica, o primado de Roma e o pontificado do Bispo de Roma”. Assim como, muitas vezes, a interpretação revela muito mais do leitor do que do texto, que foi o que demonstrei no post anterior), se retirarmos certas citações de Irineu do contexto destes 5 livros que compõem o “Contra as heresias”, traremos sobre Irineu conclusões do que sequer ainda existe em seu tempo.

O próprio texto, na verdade, já mostra o porquê de Irineu ter escolhido para exemplo a Igreja de Roma: falta de espaço para fazer o mesmo com todas as outras o que ele fará a seguir. E o que ele fará a seguir que poderia fazer com as outras igrejas também? Mostrar a guarda da Tradição desde a fundação apostólica até os dias atuais. Mas por que isso interessa a Irineu? Lembre-se que ele está refutando as heresias do seu tempo e não o papado! As heresias do seu tempo dizem fábulas tiradas de uma interpretação errônea da Bíblia e misturando essa interpretação com filosofia, mitologia e tutti quanti. Todavia, quem prega essas mentiras não têm “tradição”, são grupos diversos que se contradizem entre si dependendo de seu “mestre”. Dependendo do herege este vai inventar, tirar, esquecer, adaptar, inventar as próprias doutrinas que pregam. Cada escola, uma contradição! Na verdade, para ódio dos pseudognósticos, Irineu irá dar uma origem comum a todos eles: Simão, o Mágico (Atos 8:9ss)!

Mas as igrejas locais não eram assim! Elas haviam recebido o ensino dos seus fundadores, os apóstolos. Estes haviam repassado a Tradição da Fé, para elas e, universalmente, onde quer que você fosse, era ensinado exatamente o mesmo nas igrejas. A igreja em Roma era maior e fundada por Pedro e Paulo, por isso muito bem representativa do que estava para ser feito por Irineu. Veja que não há “papado” para Irineu. A Igreja não fora fundada por Pedro, mas por Pedro e Paulo. Ambos repassaram a Tradição ao presbítero depois deles, este para o próximo e, assim por diante, até os dias de Irineu. Este processo pedagógico de ensino da Igreja pode ser verificado em Roma e em qualquer das outras igrejas. Apenas isso!

Mais uma vez, para mim, o problema ocorre com os olhos que leem Irineu: se você olhar com os olhos de agora para o tempo dele, você o fará arauto de ensinos posteriores. Todavia, se você entender que Irineu está dialogando com seu tempo e não com tudo aquilo que veio depois dele, aí você o verá no seu contexto e compreenderá os limites da sua discussão.

Curiosidades

a) 3 pontos muito interessantes se apresentam no tempo de Irineu: 1) claramente, o governo das igrejas locais era episcopal; 2) naquele tempo de Irineu, aconteciam ainda a manifestação dos dons extraordinários (falar em línguas, profetizar (que, para ele, é falar o que está escondido nas pessoas) e ressuscitar mortos (que ele narra como resultado de um pedido em conjunto da igreja e atendido quando Deus julgou necessário);

b) O conhecimento de Irineu da língua hebraica é fraco, isto se vê quando ele vai traduzir os nomes de Deus no AT;

c) Obviamente, todas as referências bíblicas são da edição da série Patrística e elas foram colocados no fim de cada livro. Assim, o que erro frisar é que os textos bíblicos são citados literalmente por Irineu, mas os “endereços” são inserções posteriores. Todavia, algumas vezes, Irineu fala algo que, para o editor da série, poderia ser uma citação não literal, uma referência indireta... Mas não é! E mesmo assim o editor coloca que Irineu estaria citando textos deuterocanônicos, quando, na verdade, não está. É o caso de quando Irineu escreve que Deus fez o mundo do nada e o editor faz uma nota de rodapé ligando a frase de Irineu ao livro de Sabedoria, quando, contudo, poderia ter feito a ligação com Hb 11:3 (pois quem poderá afirmar que não era essa a passagem que estava na mente de Irineu?);

d) Irineu usava a Septuaginta;

e) Agora, a informação mais “diferente” para mim foi a de que, para Irineu, as Escrituras originais foram destruídas por Nabucodonosor! Um dia desses descobri que a Arca da Aliança foi, provavelmente, destruída na invasão de Nabucodonosor. O que me fez pensar o que, desde Esdras até o tempo de Jesus, o Sumo-Sacerdote fazia no Santo dos Santos. Se não havia a Arca, então não havia propiciatório. Ora, se não havia propiciatório, como era feito o ritual anual de perdão dos pecados? Se não havia Arca, durante mais de 300 anos não havia nada no Santo dos Santos? Como o judeu resolveu isso na cabeça dele? Construir um Templo com o Santo Lugar e o Santo dos Santos, que era onde Deus se manifestava sobre a Arca... Mas sem Arca?! Comecei a pensar sobre isso há alguns meses, contudo, até mesmo amigos judeus não me deram nenhuma resposta satisfatória. Não fosse isso já intrigante, agora aparece essa nova informação: para Irineu, os originais da Bíblia foram destruídos também com Nabucodonosor. Para mim, é uma informação interessantíssima em vários sentidos. Mas o que você pensa sobre isso? Sobre o Templo sem a Arca e sobre a destruição das Escrituras originais por Nabucodonosor?

Eu poderia ainda tratar de vários temas abordados por Irineu, todavia, no próximo post encerro com a exposição da escatologia dele, pois ela é muito interessante como testemunho não apenas de sua teologia, mas de como se pensava naquela época. 

Contra as heresias - Irineu de Lião (2ª parte)

Irineu sabe que pela razão o homem pode ter algum conhecimento de Deus, mas é só pela revelação que ele pode alcançar a consciência plena sobre Deus.

Mesmo assim, ainda estamos num período de defesa do cânon e não de sua análise. O que eu quero dizer com isso? É que Irineu está defendendo os livros e justificando o porquê deles serem aceitos pela Igreja como Palavra de Deus. 

leitmotiv que anima Irineu é, antes de tudo, o Ser de Deus. Pois este era o ataque dos gnósticos: eles diziam que não havia apenas um Deus; diziam que o Deus do AT é diferente do NT; afirmavam que ou Jesus só veio em aparência de homem ou Jesus era um e o Cristo, recebido por Jesus só no batismo de João, era outro; os gnósticos insistiam em uma leitura alegórica e hermética dos livros bíblicos; ensinavam que a gnose deles era superior e que alguns discípulos sabiam dessa gnose deles, então, a leitura do texto sagrado desses gnósticos era sempre uma tentativa de achar as pistas deixadas que indicavam as mensagens secretas que só serão captadas pelos iniciados, etc. 

Portanto, Irineu precisa ser lido naquele contexto histórico e anterior. É preciso que se leia Irineu desde os textos bíblicos, passando por Clemente Romano, Ignácio, Policarpo, Pápias, Taciano e Justino, do contrário, você trará para Irineu o peso já de uma série de debates posteriores que não pertencem a ele. Defendo que, para ser o mais justo possível com Irineu, você o leia não com tudo aquilo que você já sabe, mas com as informações que o Irineu possui. E o mais importante: você deve lembrar que ele não é um autor inspirado e canônico.

A Igreja cristã sempre foi defensora do povo judeu desde o seu nascedouro. Prova disso é a luta incansável dos primeiros pais em se levantar contra todos que queriam eliminar os livros e os trechos que eram "judeus" demais. A Igreja se levantou contra esses chamando-os de hereges! Não fosse assim, se a Igreja quisesse virar as costas para "o povo que matou Jesus", ela não teria lutado tenazmente para manter o Velho Testamento consigo e nem teria se esforçado tanto para continuar vinculada à sua raiz judaica. Agora, depois de todo esse esforço apologético desde Clemente o Romano em 90, vem, a partir do ano 170, a cereja do bolo: o livro IV de Irineu, que compõe o "Contra as heresias", é a defesa dois Testamentos. "Seu plano compreende 3 partes. Além do prefácio e conclusão, temos: a) unidade dos dois Testamentos, provada pelas próprias palavras de Cristo (nn. 1-19); b) o AT é profecia do NT (nn. 20-35); c) a unidade dos dois Testamentos é comprovada pelas parábolas de Cristo (nn. 36-41,3)".

Irineu irá, no Livro IV, mostrar que os judeus não aceitaram a Jesus, porque pensaram que poderiam conhecer diretamente o Pai. Irineu é claro ao afirmar que só se conhece o Pai por meio do Filho.

Ele mostra no Livro IV que o AT é a preparação para a chegada de Jesus. A Lei, o Sábado, a circuncisão, tudo isso foi dado como um meio para preparar o ser humano. E Irineu insiste que nada disso foi dado ao homem para sua justificação, mas como sinal! A partir deste ponto, é necessário que se leia Irineu compreendendo a linha interpretativa que, na verdade, costura e une sua leitura bíblica e que será o traço original dele: a doutrina da recapitulação. Além do contexto histórico, a sua doutrina da recapitulação será fundamental para entendermos como Irineu pensa os próximos temas que serão abordados aqui.

Teologia de Irineu:

Doutrina da recapitulação: A história da salvação humana transcende a vinda de Cristo para a remissão dos nossos pecados. Jesus veio também para recapitular toda a humanidade desde Adão, levando-nos, gradativamente, à perfeição (não há universalismo em Irineu, é bom frisar). A doutrina da recapitulação é a ação educacional progressiva de Deus e é nesse contexto que se encaixa a Lei. O homem não foi criado perfeito e nem imperfeito, mas estava no Plano de Deus nos “aprimorar” para que pudéssemos viver no Espírito. Assim, com a Queda, além da remissão dos pecados, Jesus veio para nos levar à perfeição, tornando-nos humanamente plenos.

Da Queda até o Cativeiro no Egito, o homem não precisava das Escrituras, pois ele sabia em seu coração da lei que ali estava impressa e buscava agradar a Deus, mesmo pecador. Todavia, durante o Cativeiro, ele esqueceu de como agradar a Deus e, então, veio a Lei para que o homem fosse preparado para a vinda plena do Espírito, que levará o homem a se assemelhar com Deus, completando, assim, a sua humanização.

Por isso Jesus veio e viveu todas as fases da vida humana (bebê, criança, adulto), para recapitular a nossa própria história. Quando Adão foi criado, ele era apenas uma “criança”, precisava virar adulto. O objetivo divino, então, é que Adão se torne aquilo para o que foi criado: assemelhar-se ao seu Criador, Jesus, que o criou do barro segundo o molde de Si mesmo, o homem verdadeiro. Todavia, esse homem verdadeiro só foi revelado na encarnação de Jesus. Em Jesus, a humanidade encontrou Deus de novo e só Jesus pode recapitular tudo (por isso as genealogias nos Evangelhos, na verdade, elas mostram já a recapitulação da humanidade até Adão). Com isso, também, Irineu combate um ensino herético do seu tempo que afirmava que Adão não fora salvo.

A “Mariologia” e a doutrina da recapitulação

Assim, compreendendo a doutrina da recapitulação, a gente pode ler Irineu dentro da sua maneira de ler a Bíblia. Em outras palavras, a recapitulação é o óculos que ele usa para ler as Escrituras. A minha proposta, então, é que você aceite 3 pressupostos antes de ler Irineu: 1) ele não é um autor inspirado (logo, comete erros); 2) ele interpreta e explica a Bíblia à luz da recapitulação; e, por fim, mas não menos importante, você deve ler Irineu dentro do tempo dele e não com tudo aquilo que hoje você tem de informação, mas ele não! Vamos lá!

Se você destaca certos trechos de Irineu e os lê no contexto de tudo o que hoje sabemos acerca do ensino romanista sobre Maria, sim, parece que ele vai ao encontro de toda a atual mariologia. Só que não. Entenda: até agora, todos os que lemos, desde Clemente o Romano, enfim, os volumes 01, 02 e 03 da série Patrística, nenhuma teologia mariana surgiu. A construção da mariologia como a conhecemos hoje é ainda posterior a Irineu e não se pode, portanto, pôr na conta dele coisas que, na verdade, outros é que querem ver.

Afinal, o que Irineu disse sobre Maria? A mesma coisa que Justino! Só que Irineu, à luz da doutrina da recapitulação, irá desenvolver o tema. Justino faz a ligação clássica na teologia entre Eva e Maria. E, quando você estabelece isso, a saber, as duas premissas: 1) o pecado entrou no mundo pela desobediência de Eva e 2) a destruição do pecado veio ao mundo pela obediência de Maria, o silogismo carrega você à conclusão: então Maria participou da salvação! A resposta é sim e não! O que Irineu está pensando quando afirma que Maria salvou Eva, e mais, que por causa de Maria houve a salvação do gênero humano? Nada. Nada além do que é aceitável! Vou explicar.

Na doutrina da recapitulação subjaz a doutrina da “recirculatio”, que entende o “desfazimento” dos nós que foram dados: para que o erro seja desfeito é preciso que se faça o caminho inverso. Assim, onde houve desobediência é preciso que haja obediência. Logo, onde Adão errou Cristo acertou. Onde Eva errou, Maria acertou. Se fomos condenados por causa da falta de fé de Eva, fomos salvos pela fé que Maria demonstrou em sua resposta às palavras do anjo. Isto faz parte da economia da história da nossa salvação. Entendendo isso veremos que Irineu não está atribuindo a Maria a efetivação da nossa salvação, pois fosse dessa maneira, a lógica nos levaria a entender que Jesus, então, salvou os homens e Maria salvou as mulheres. Contudo não é sobre isso que Irineu está falando: a obediência de Maria desatou o nó da desobediência de Eva para satisfazer a doutrina da “recirculatio”. Só isso.

Se você entender os limites do pensamento de Irineu, poderá tranquilamente afirmar, juntamente como ele, que a salvação do gênero humano veio de Maria! E não é verdade? Jesus veio de Maria! Mas, digo ainda, que Maria também foi, para Irineu, recapitulada por Jesus: ela está na genealogia de Jesus!!! Entende? Se a própria Maria não precisasse de salvação, ela não seria apresentada na genealogia, pois a genealogia é a recapitulação da história da nossa salvação em Jesus para Irineu. E Maria, aquela que cantou “A minha alma engrandece ao Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador” também precisava de um Salvador. Ora, o que depois fizeram (e fazem) das palavras de Irineu não é um problema dele, mas revela uma interpretação anacrônica sobre seu pensamento e que não leva em conta o próprio todo e contexto do pensamento de Irineu nesses cinco livros. 

(continua...)

Contra as heresias - Irineu de Lião (1ª parte)

Ler “Contra as heresias” de Irineu de Lião é ser lançado num mundo paleocristão de imensas convulsões. Acostumado que estava em sempre encontrá-lo nas notas de rodapé dos manuais e livros de teologia, em geral para comprovar que a Igreja já reconhecia a maioria dos livros do NT como Palavra de Deus em pé de igualdade com o AT (Irineu só não trabalha com os seguintes livros: Ester, Cronicas, Eclesiastes, Jó, Cântico dos Cânticos e Obadias (AT) e II Jo e Filemon (NT)), contudo, achei muito mais interessante ler como Irineu maneja as Escrituras para refutar as seitas de seu tempo.

Irineu escreveu o seu livro, ou melhor, sua coleção de 5 livros reunidos posteriormente debaixo do título comum de Adversus haereses, entre os anos de 175 até 190. É uma obra espetacular por várias razões: 1) seu valor histórico; 2) levantamento detalhado das seitas e suas heresias daquele tempo; 3) sua refutação lógica que desmonta os ensinos das seitas a partir de suas contradições; 4) a defesa apaixonada da ortodoxia a partir dos textos do NT e do VT (ele é o primeiro a usar a expressão “escrituras” para se referir a ambos testamentos); e 5) a exposição da teologia de Irineu.

O Livro I é dedicado à exposição detalhada das seitas e suas heresias ou, como o autor se expressa, “a teoria deles, que nem os profetas pregaram, nem o Senhor ensinou, nem os Apóstolos transmitiram”. Nesse Livro I, Irineu nos dá um quadro assombroso da confusão mental dessas seitas: uma chocante mistura de judaísmo, cristianismo, mitologia grega, filosofia pré-socrática, religião de mistério, pitagorismo, platonismo, mitologia grega, etc. Só lendo mesmo para se ter uma noção da Hidra contra a qual a Igreja precisou se levantar ainda naquele século. O Livro I faz as nossas atuais seitas e heresias parecerem brincadeira de crianças no jardim de infância. A sensação que eu tive é que sincretismo mesmo foi aquilo descrito por Irineu e nada do que temos enfrentado nos últimos 200 anos se compara àquilo. 

É muito interessante ver o método aplicado por Irineu que mostra não apenas que as seitas interpretavam de maneira errada as Escrituras, mas também a poesia de Homero. Aliás, Irineu não é apenas um profundo conhecedor das Escrituras, mas da filosofia e da poesia greco-romanas! Irineu, portanto, vai primeiramente, demonstrar o erro no uso de alegoria e a busca por um sentido místico, hermético e oculto que as seitas fazem na poesia e na filosofia greco-romana. Este mesmo erro as seitas também cometem ao ler as Escrituras, mostrará Irineu. Mas essa refutação ao próprio “corpus” doutrinário das seitas já é o tema do Livro II.

Os dois temas principais que Irineu está combatendo e, a partir dos quais, devemos ler e interpretar os cinco livros são: 1) o Deus do AT e do NT é o mesmo (disso decorre que o NT é uma continuação do AT); e 2) Jesus, o Nazareno, filho de Maria, é o mesmo Cristo prometido no AT (Jesus não “recebeu” o Cristo no batismo, pois Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, Verbo eterno). 

Um dos pontos mais importantes em Irineu e nos que o precederam é a luta na preservação dos livros do AT. A defesa de que o Cristianismo não é uma seita revolucionária, ao contrário, o cristianismo é a revelação ortodoxa cujas raízes se fincam profundamente na Escritura judaica. Por isso, a igreja se levantará tenazmente contra todos aqueles que querem expurgar tudo que “é judeu”, sejam partes ou mesmo livros inteiros como fez Marcião, o herege (150).

Assim, na Soberania divina, aquele imbróglio de heresias que surgiram e se desenvolveram desde o início serviu para que a Igreja defendesse a Tradição Apostólica da Fé e não apenas a canonicidade dos livros em si. Por isso, por mais de uma vez, Irineu faz uma exposição da Regra da Fé cristã recebida diretamente dos Apóstolos que fundaram as igrejas espalhadas pelo mundo, que será a base para o Credo que será desenvolvido depois. Veja abaixo:


Esta obra, de tamanha envergadura, sem sombra de dúvida é um marco para a separação da igreja do ocidente e do oriente. A igreja oriental vai assumir cada vez mais uma interpretação alegórica, que será insustentável diante das seitas e heresias daquele tempo. Irineu impõe, magistralmente, a interpretação lógica e analítica do texto e seu contexto e a usa não apenas sobre as Escrituras, mas também para demolir as heresias! Todavia, o próprio Irineu, fará também interpretações profundamente alegóricas como mostrarei mais adiante. Enfim, estará aí uma das decisões mais importantes para a futura exegese da Igreja.

Outra dificuldade das seitas era aceitar a doutrina da ressurreição dos corpos – o corpo era mau e deveria ser extinguido, logo, a salvação no Cristo era apenas para a alma. Para refutar essa ideia Irineu desenvolve uma belíssima teologia do corpo e a importância do ser humano como um todo – corpo, alma e espírito (nada a ver com uma discussão tricotômica ou dicotômica, antes holística)! O corpo nada é até que lhe venha o ES e comece a prepara-lo para a vida eterna! Se esta carne consegue receber vida de Deus, muito mais a carne preparada para a glória e cheia do Espírito Santo poderá ser ressuscitada, diz Irineu.

O livro III inicia com a apaixonada defesa da “Tradição Apostólica”, que é o Evangelho recebido pelos apóstolos, o ensino sobre a economia da nossa salvação. No Livro III, como em todos os escritos anteriores de outros Pais, ele demonstra que a palavra gnose é usada sem a conotação pejorativa que usamos atualmente. Na verdade, o que vemos é que, para aqueles Pais da Igreja, o que está acontecendo é uma batalha entre duas gnoses: a cristã, revelada por Deus, e a das seitas, herética e inventada por pessoas que não são quem elas dizem que são (para saber mais clique aqui).

Irineu confirmará o número de 4 Evangelhos aceitos pela Igreja espalhada por toda terra, dizendo que o de Mateus foi escrito para os judeus originalmente na língua deles, o Evangelho de Marcos fora uma pregação de Pedro, o de Lucas fora uma pregação de Paulo e que o Evangelho e o Apocalipse de João são do discípulo que recostava a cabeça no peito de Jesus naquela última noite narrada no Evangelho. E mais: à luz de Ezequiel e Apocalipse, ele defende o Evangelho único e quadriforme! Cada Evangelho com suas características e públicos (leão, novilho, homem e águia), mas unidos na descrição de Jesus!

Em momento algum, defendo eu, Irineu faz uma defesa do papado romano ou do primado do bispo de Roma (vou mostrar isso em outro post). O contexto é de ataque e Irineu mostra que a competência cristã em salvaguardar o tesouro do ensino apostólico é muito maior do que o dos “mestres gnósticos”, que não tem tradição alguma da qual possam tirar seus ensinos.

O que precisa ficar claro, portanto, é que para Irineu a “tradição” é a Regra de fé. Apenas isso. O que eu quero dizer? Não está em “Contra as heresias” a defesa de que a sucessão apostólica dá autoridade para inserir novas doutrinas. A tradição é aquilo que as Igrejas já receberam (ver acima a imagem da Regra de Fé, que é a isso o que Irineu chama de "Tradição").

A defesa maravilhosa da Santíssima Trindade e da presença especial do Espírito Santo nos autores apostólicos também aparecem no Livro III.

Da obra como um todo, posso depreender um método apologético usado por Irineu: 1) conhecer profundamente o pensamento da seita e suas heresias; 2) refutar o pensamento herético por meio da lógica e da análise das contradições desse pensamento; 3) refutar o pensamento da seita a partir das Escrituras; 4) defender a saudável interpretação das Escrituras, mostrado os erros de interpretação da seita sobre as passagens usadas por ela.

(continua...)

Justino de Roma - série Patrística, vol. 3

Em pleno ano 155 (+/-) d. C., há os escritos de Justino de Roma, o mártir, que coloca em pé de igualdade os escritos do AT e do NT, citando a ambos em abundância nos seus livros.

Além disso, surpreendeu-me ver em Justino tanto as ideias da "semente da religião" como a do "fator melquisedeque". Na verdade, essas duas ideias estão amarradas. A "semente da religião" de Calvino parte do pressuposto que fomos criados à imagem e semelhança de Deus e, mesmo após a queda, essa imagem aviltada pelo pecado gera em nós uma "saudade" (Santo Agostinho). Porém, como o ser humano não pode chegar a Deus pela Teologia Natural (analogia entis), sem a Revelação especial (analogia fidei), é impossível conhecer a Deus, daí essa "sede", "saudade", "religiosidade" humana se perde no sagrado impessoal e nas muitas imagens erradas sobre o Ser de Deus. O "fator melquisedeque" parte de uma apropriação do personagem bíblico do AT, o Sacerdote Melquisedeque, rei de Salém, que depois será trazido como um tipo de Cristo pelo autor de Hebreus. Don Richardson vai defender que o Evangelho já está presente nas diversas culturas humanas e uma das principais razões se deve ao fato de que todos os povos e culturas do mundo vivemos as mesmas narrativas de Gênesis 1-10, além da presença da "semente da religião" em todos os seres humanos.

Don Richardson, missiólogo, dirá que o missionário, portanto, deve estar atento à cultura para identificar nela os elementos do Evangelho que podem ou não ainda subsistir. Para um aprofundamento dessas ideias, indico dois livros do Don Richardson: "Fator Melquisedeque" e "O Totem da Paz". Evidentemente, que essa ideia de Richardson não é matemática, isto é, impreterivelmente todas as culturas apresentarão elementos do evangelho. Nem todas apresentarão, como, também, as que apresentarem talvez já tenham elementos tão deturpados pelo pecado cultural que nem vale a pena aproveitar sob o risco de sincretismo.

Quando se fala em elementos do Evangelho, quais seriam? A presença na cultura de ideias de justiça, de pagamento, historias sobre um inocente que entrega a vida em benefício do grupo, etc. Tudo isso pode facilitar a apresentação do Evangelho por parte do missionário transcultural.

E é exatamente isso que Justino faz em suas apologias! Assim como Paulo, Justino reconhece a semente religiosa revelada pelos filósofos gregos, que chegaram mesmo à compreensão do monoteísmo contra a cultura politeísta ainda resistente. Na verdade, todas as discussões da filosofia grega se davam na base do Ser imutável que sustentaria a mutabilidade de todas as coisas. Justino louva o que a cultura filosófica e mítica dos greco-romanos conseguiu alcançar. Justino, então, usa o que Don Richardson chama de "abridor de olhos", mostrando que o Evangelho não é algo assim tão estranho à cultura do seu público.

Por outro lado, diz Justino, isso não é suficiente, pois as próprias contradições apresentadas nos mitos e na filosofia grega entre seus autores revela que falta algo superior, falta uma luz naquelas trevas. Daí Justino passa a pregar o Evangelho revelado nas Sagradas Escrituras desde Gênesis por Moisés (portanto, um conhecimento muito anterior aos filósofos pré-socráticos e a Homero: o argumento da antiguidade foi fortemente usado pelos Padres Apostólicos e Apologistas para refutar a cultura pagã daquela época). Justino é simplesmente um comunicador e um contextualizador de mão cheia! É uma delícia ler as Apologias dele e imaginar que estamos lendo um texto de uma igreja recém-nascida e que já precisa dar a razão da sua fé diante de leões.

Se eu pudesse apontar dois "poréns" na teologia de Justino, eu diria que falta a Justino uma noção da total depravação do gênero humano e, como uma das consequências, muito do mal que ele constata na cultura ele atribui fortemente à ação demoníaca. Contudo, compreendendo isso, ler Justino é avivar tudo o que cremos em nosso coração.

No seu "Diálogo com Trifão", Justino evangeliza o judeu Trifão nos presenteando com um texto maravilhoso sobre como usar as Sagradas Escrituras para apresentar o Cristo. Como já disse, todas as doutrinas essenciais do Credo se encontram nas obras de Justino. Inclusive, a obra "Diálogo com Trifão" é a primeira obra que temos que mais cita a realidade do nascimento virginal de Jesus (19 vezes!).

Tudo isso me faz lembrar certo professor que me disse uma vez que "estudar história da filosofia não é Filosofia". Isto, na verdade, se aplica a todas as outras disciplinas: estudar história da Igreja ou história dos mártires ou biografias de teólogos não é o mesmo que ir às fontes primárias e beber lá! Em outras palavras, eu posso, por exemplo, saber tudo sobre a vida de Machado de Assis e saber sobre o que versa cada livro e conto que ele escreveu, sem, contudo, ter lido uma linha, um conto, um livro dele!

E o que eu percebo é que as escolas, faculdades, cursos gerais, seminários, etc estão se especializando em "história", "resumo", "esquema" e coisas assim, sem levar o aluno, o estudante, a ler as obras desses grandes escritores.

Em teologia, tudo isso se torna ainda mais grave, pois ficamos acostumados com aqueles ensinos gerais do tipo: "Fulano cita não sei quantas vezes o AT", "Ciclano cita não sei quantas vezes o NT", tudo isso para nos mostrar que, naquela época, tais autores já compreendiam esses evangelhos e cartas como Palavra de Deus em pé de igualdade com o AT. E que aquelas velhas mentiras liberais de que as doutrinas foram forjadas só quando o "Cristianismo se tornou uma religião do Império para manipular as pessoas", elas são só isto mesmo: mentiras. Ainda assim, ler "manuais de teologia" que nos passem essas informações é se encontrar com informações de 3ª, 4ª mão. Até porque a maioria desses manuais ou livros sobre história da Igreja já são eles também frutos de coleção de outros manuais. Enfim, pouquíssimos vão às fontes primárias (mesmo quando há tradução delas em português).

O que eu quero dizer é que ler obras como as que foram escritas pelos Padres Apostólicos, pelos Padres Apologistas e por Justino (obras que foram escritas até o ano 170 d. C.) é constatar não apenas que as doutrinas da fé cristã já estavam ali, mas, principalmente, ver como esses primeiros e corajosos defensores da fé tiveram que lidar com a cultura helênica, o mundo romano e o judaísmo daquele tempo. Como eles defenderam a fé a ponto de morrer por ela! Eram comunicadores do Evangelho, alguns desses homens souberam de modo magistral contextualizar essa comunicação para seu público, outros fincaram o pé naquilo que era inaceitável do mundo pagão à mente deles. Mas todos não estavam ali para brincadeira: eles amavam o Senhor Jesus!

Por que muitos professores, neste modelo infeliz de "Educação" que temos, enfiam um conteúdo a ser passado dentro de um limite de tempo em que se é impossível "ler livros", ler as fontes originais? Quantos não são os alunos que mergulham em aulas-resumo e se "especializam" em resenhas sem nunca ler as obras de fato, engolindo as interpretações erradas, manipuladas e deturpadas de terceiros, quartos e quintos!

Infelizmente, há pastores em muitos púlpitos que sequer leram a Bíblia inteira uma única vez na vida - isto é uma tragédia! Há missionários, que se propõe a traduzir a Bíblia, mas que nunca a leram sequer uma única vez inteira em suas vidas - outro escândalo!

A lista é enorme das atrocidades cometidas pela nossa geração no quesito formação intelectual: há pastores, presbíteros, diáconos (e tantos outros líderes) que já leram Barth, mas nunca leram Justino. Já leram René Padilha, mas nunca leram Agostinho. Já leram Leonardo Boff, mas nunca leram Tomás de Aquino. Já leram William P. Young, mas nunca leram João Calvino. Já leram o último livro da moda gospel, mas nunca leram a Bíblia toda sequer uma única vez na vida...

Para finalizar, gostaria de deixar como interessantíssima curiosidade a liturgia dos cultos dominicais registrado por Justino:

1) No domingo, reúnem-se os cristãos da cidade e do campo;
2) Leitura do Novo Testamento ("memórias dos apóstolos") e leitura do AT ("escritos dos profetas"), enquanto o tempo permitir;
3) Palavra de exortação do Presidente da comunidade sobre o que foi lido e aplicação dos exemplos lidos para a vida dos ouvintes;
4) Abençoa-se os elementos da Santa Ceia;
5) O Presidente ora;
6) Faz-se a ação de graças e distribuição desses elementos (incluindo os ausentes, que receberão das mãos de diáconos em suas casas);
7) Momento do recolhimento das ofertas;
8) O Presidente destinará as ofertas para as devidas necessidades (órfãos, viúvas e outras causas).

Padres Apologistas

Após ler os dois primeiros livros da série "Patrística", Editora Paulus, (veja o 1º aqui) fiquei com aquela sensação, ou melhor, pergunta insistindo na minha cabeça: "Por que nunca li estes livros no Seminário"? 

Em algum Seminário por aí, quem sabe, talvez professores estejam passando essas obras maravilhosas de Clemente Romano, Inácio de Antioquia, Policarpo de Esmirna, ou mesmo Atenágoras, Taciano, etc, ao invés de Teologia Liberal (aliás, eu quase que só vi teologia liberal rsrsrs). São cartas, defesas, documentos valiosíssimos não apenas pelo seu testemunho histórico, mas, principalmente, por mostrar uma Igreja no seu nascedouro e já engajadíssima em defender a fé que uma vez por todas foi dada aos santos.

A luta da Igreja contra a divisão do Cristianismo, a busca pela unidade da fé, a defesa da hierarquia eclesiástica, o esforço no discipulado, o posicionamento claro diante dos primeiros hereges e seus falsos ensinos, a luta contra o gnosticismo, contra o antissemitismo e contra o paganismo são as marcas de um povo espalhado pelo Império Romano e que avançava firmemente no trabalho de evangelismo.

As cartas desses apologistas são endereçadas aos Imperadores Romanos e, com toda a ousadia e sem nenhum pudor politicamente correto, eles não apenas defendem as doutrinas centrais da fé como a Santíssima Trindade e a ressurreição de Cristo e da carne, como também não fogem de um ataque frontal contra a fé pagã romana. Eles não são apenas apologistas, como o título faz supor. Eles são atacantes, beligerantes mesmo, que por meio da retórica, da própria cultura greco-romana, do argumento da antiguidade e da Bíblia investem contra a fé pagã reduzindo-a ao ridículo. 

É muito bom ver como já se desenvolvem as interpretações alegórica e literal da Bíblia e o desenvolvimento, portanto, da gnose cristã que irá ser fundamental na teologia ortodoxa da Igreja do Oriente, marcando definitivamente a diferença entre o Cristianismo Ocidental e o Oriental. 

Espero poder seguir adiante na leitura de toda a série da Patrística, uma vez que ela se encontra na Amazon por um preço muito mais acessível do que sua versão em papel. Boa leitura!