Após a leitura, classificarei os livros assim:
Péssimo [0] Ruim [*] Regular [**] Bom [***] Muito Bom [****] Excelente [*****]

A Montanha Mágica





Thomas Mann
957 Páginas
Editora Nova Fronteira

"Num sanatório na Suíça, reúnem-se indivíduos de várias raças e credos. Aí se entrelaçam problemas, inquietações, sofrimentos de toda ordem. Construído nos anos seguintes à Primeira Guerra Mundial, este romance é o mais completo painel de uma Europa enferma, à procura de uma unidade. Prêmio Jabuti 2001 - Capa e Produção Editorial. Eleito um dos cem livros mais importantes de todos os tempos pelo Círculo do Livro da Noruega".

2 comentários:

Jorge Fernandes Isah disse...

Os diálogos (ou melhor, debates) entre Naphta e Settembrini, em "A Montanha Mágica", são um primor, por vários aspectos. Além da profundidade dos argumentos e dos temas apresentados, há uma cumplicidade entre ambos, a despeito da divergência de posições e defesas intransigentes. Mesmo sem o desejo de reconhecer a necessidade de um pelo outro, em que o antagonismos parecem tornar ainda mais imprescindível a coexistência intelectual, não existe ódio ou desprezo, pelo contrário, parecem se alimentar um do outro, o que não é mau, e pode, talvez, fazer um e outro adequarem os seus pensamentos ao escrutínio da verdade. Sim, há muitas divagações e furos no pensamento se ambos, mas assim não é o homem? Contudo, pode-se ter uma aula, inclusive se convívio pacífico (mesmo havendo algum grau de superioridade, presunção, de um em relação ao outro, quanto ao que pensam) com os longos debates entre eles, cujas testemunhas são sempre o Hans e Joachim, os jovens a testemunharem os embates entre os velhos.
Este capítulo, em especial, é um exemplo do nível de escrita do autor, e se chama : "Da cidade de Deus e a redenção do mal", numa clara alusão a Agostinho. Ele aponta para a interessante afirmação de que os movimentos revolucionários modernos, p. ex. a Revolução Francesa, Russa, etc., foram fomentadas nos escritos de Tomás de Aquino, e disseminados pelos tomistas, séculos depois. Algo realmente inusitado mesmo entre os clássicos; um nível de debate altíssimo!

No mínimo, uma experiência filosófica em estado puro.

Grande, Mann!

Ps: Estou lendo o livro o mais rápido que posso, e já se passou mais de um ano, desde o início da leitura, cujo texto tem me deixado mais apaixonado, a cada página lida.

Jorge Fernandes Isah disse...

Continuando...

Veja só o que encontrei na boca do personagem Naphta, ao contestar o "humanismo" de Setembrini. De todos os capítulos, este foi o que mais me chamou a atenção até o momento, por tratar de questões reias mas, também, indo além em termos metafísicos e subjetivos, sem deixar de adentrar no "mundo dos vivos". Questões como liberdade, responsabilidade, revoluções, política, juventude, movimentos de massa, teologia e muita filosofia, estão presentes, ainda que alguns pontos sejam tocados superficialmente e de maneira incipiente, os diálogos são capazes de aguçar a mente do mais desinteressado leitor. O título do capítulo, já citado, é "A cidade de Deus e a redenção do mal", e constitui-se em algo primoroso, escrito por Mann.

Ele defende exatamente a mesma posição que advogo: de que os escolásticos, e boa parte da Igreja medieval, foram os reais fomentadores do socialismo e do movimento revolucionário posteriores.

Ao contrário do que alguns católicos "iluminados" afirmam, não foram os Reformadores, mas eles próprios, a semente do marxismo, muitos séculos antes. Na verdade, trabalharam, e muito, por ele. E ainda trabalham.

A exposição é muito mais longa, e muito bem detalhada no referido capítulo. Deixo apenas a indicação, de quem se interessar, para ler a partir da página 543.

Vale cada palavra; e a igual meditação, sem se precipitar.

Falando um pouco do livro, no geral, ele não é para qualquer um. O autor parece não estar nem um pouco interessado em "agradar" o leitor comum, pois não temos reviravoltas, surpresas, mudanças repentinas de atitudes e ações abruptas. O livro está em um desenvolvimento lento, progressivo, e que, ao nos depararmos com um movimento menos convencional, não nos pega desprevenido, pois ele já foi insinuado e se desenvolveu páginas antes (no geral, muitas paginas).

Não é uma leitura para se distrair. Requer atenção nos mínimos detalhes, para se compreender aonde o autor deseja chegar.

Por outro lado, há uma verborragia necessária, e que faz com que o leitor vá se apaixonando pouco a pouco, e cada vez mais, com a narrativa. Depois de algumas dezenas de páginas, não há volta: está-se fisgado!

Também é necessário paciência; não é um livro para apressados. Como em uma lauda refeição, se comer-se a entrada rápida e vorazmente, não haverá espaço para se degustar o prato principal.

Mas, certamente, o leitor será contemplado e recompensado ao final.